segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Meu único, e último... Conto



Meu único, e último... Conto



Eu lembro-me de Bom Jesus da Lapa na Bahia. E de uma história contada por um “Filho de Lapa” de nome Djalma: encarregado de uma pequena Lanchonete que havia ali, ou que ainda há: aonde nas Manhãs e Tardinhas, aos Sábados, e Domingos; ou nas Noites dos outros dias da Semana; “paus d’águas” amigos meus, e cúmplices dessas “bacantes” vividas: encontrávamo-nos para falar das coisas da vida trivial, e da Cidade, mais da vida dos outros do que, das nossas próprias.
Lembro-me do Professor Agostinho que diziam ser Maçom, de um Sgto Radiotelegrafista da FAB com sua insônia “histórica” que nos “Cabarés” de Lapa se “escondia”, mas que não procurava mulher; procurava amigos para conversar, mas que não ouvia; era portador de Síndrome desconhecida naquela época: LER nos seus próprios tímpanos: e assim ele matava o tédio, e o tempo, e sua mulher que conheci não se importava, pois ela reconhecia a causa, e as consequências de seus tormentos.




Como não consigo esquecer um parecido; Lunático que nas fases de “suas Luas”, para acalmar a nostalgia de sua alma, nas noites quentes usava um Sax Soprano, e enchia as madrugadas com suas melodias.
Lembro-me dos Comandantes das pequenas Aeronaves, e dos passageiros da Nordeste Linhas Aéreas, ou Aero lines Linhas Salvem-nos Deus! Como os Bandeirantes de outrora... Era a gozação das grandes empresas Aéreas naquela época.




 Lembro-me das pernas longas de um desses transeuntes que veio de passagem, e que ficou. Indiferente peregrino de seu próprio destino; filho da Torre, Bairro de João Pessoa-PB; mas que naquela terra distante, nos Bingos; beneficentes ou não: a pedra Onze, era a sua canção, o seu apelido era reconhecido, marcado, cantado, ou comemorado... “As pernas do Canção”!
Djalma contava-me (quando a conversa era política) que um Prefeito que não conheci, e que ele o refrutava como: a inteligência da ignorância; homem popular daquelas “brenhas”; daquela terra, mas que havia Primaveras nas suas palavras; simples sertanejas parecidas “alpergatas’ da verdade”. Contava-me que o Presidente Jango (quando Presidente, e investido da função Presidencial) fez uma visita a Lapa, pois queria conhecer a Serra dos Ramalhos, onde se desenvolvia um protótipo de Reforma Agrária, nos Moldes de Agro vilas em número de Nove, depois Dez, Onze... Tendo um delas, como Agro vila Central; hoje! Cidades.




O “tido” ignorante Prefeito fez a sua parte (numa época que se havia Zumzumzum; não era como agora), e mobilizou a Cidade, e organizou um Banquete; e em cada esquina pôs: Churrasqueiras improvisadas, e Churrascos (quantos Bois, não sabem); fogos de artifícios distribuídos, e outros colocados em pontos estratégicos para chamar a atenção (não mediu preços, nem consequências); Cerveja, e cachaça “da boa” por toda parte, tudo grátis... E a responsabilidade sua, ele! Era o Prefeito, e sabia muito bem o que estava a fazer, fazendo, ou feito.
Bandeiras de Jango, do Brasil, Faixas alusivas, Foguetório, Festa, Vivas! Salvas! Salvem! E o Prefeito de Bom Jesus da Lapa satisfeito... Havia recebido com honras de Estado, o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
E pouco tempo passou e veio a Revolução de 1964, com todos seus; Rounds, e Revanches, e Nocautes. Uns; técnicos, alguns; Burocratizados, e outros; sumariamente sumários. Os gozadores de ocasiões, em seus palanques fizeram a “caveira” do Prefeito, e os futuros Biônicos fizeram a festa: quando souberam que viria a Lapa uma comitiva Militar para prender o Prefeito por subversão ativa, por Ideologia Comunista; não o demitiram à distância, pois tencionavam prendê-lo algemado perante o público numa demonstração de Poder. E a oposição se mobilizou com Bandeiras, e cartazes; Viva a Revolução! Lamarck foi morto aqui! Não! Aos Comunistas! Fora! Guerrilheiros! Salvem-nos meu Bom Jesus! Excomungue-se Fidel! Morte aos adeptos de Guevara! Fora esse Prefeito Subversivo! E o Prefeito na dele. Tapinhas nuns: tapinhas noutros; pinguinha aqui! Pinguinha ali! E sempre repetia; calma! Camaradas! Meu discurso já está prontinho, aqui! Na minha cabeça.
Como possuía maioria na Câmara solicitou Vênia aos apavorados e disse-lhes Não! Guardem suas faixas para depois, pois vou repetir de forma maior, o que foi feito antes; porque eles hoje representam a autoridade maior neste País; e se eu não convencê-los, mostrem suas faixas, e façam bom uso da Cerveja, da Cachaça, dos Churrascos, e esqueça-se de mim, tenham-me como preso.
E chegou o dia em que a comitiva chegou; por Terra, e Ar. Pense quantas autoridades num “pacote” só. Pense nas Filosofias próprias as figuras típicas de Kung-Bó; a grossura atípica de um Kung-Fu, e a Mania Lírica de um, Pedro Bó. Só faltava ao cenário segundo o Djalma; Tanques de Guerra, e Canhões; ou Aviões Caças, ou Disco Voador... E a fisionomia Nordestina se dirigindo sem saber a qual autoridade era a Maior; tantas estrelas tinham; com Gemas, ou sem Gemas... E toda esta comitiva tomou o primeiro susto no caminho que a conduzia fortemente armada em direção a Prefeitura.
Fogos de artifícios, vivas! E festa, Bandeiras do Brasil, Fotos dos Líderes da Revolução, Cartazes, e mesas de “Banquete” em cada esquina; e a torcida organizada do prefeito dando vivas; a Revolução.
E alguém em voz alta perguntou ao Prefeito:
- Foi você que recebeu o Jango com tantas Honrarias não cabíveis?
- Sim! Meu Senhor
- Por qual razão, e por quê?
- Pelas mesmas razões que me justifico recebendo vocês
- Mas você sabia que estava recebendo um Comunista?
- Sim! Excelência; como estou recebendo vocês, cientes de que não são.
- Ora! Você já está me chateando; explica, mas não justifica.
- Desculpas Excelência! Mas só agora é que estou sendo solicitado justificar-se, e vou me justificar, e lhe explicar ao mesmo tempo; entenda, ou não entenda o Senhor.
- Excelência! Eu sou apenas, um pequeno Prefeito, desta pequena Cidade da Bahia, que sobrevive graças a Romaria do Senhor Bom Jesus da Lapa que Deus nos enviou, mas que dependo dos Deputados Estaduais, e Federais desta Terra, como dependo também da Presidência da República; e tem mais: esta Cidadezinha aqui com Cinquenta (mais ou menos), Mil habitantes; na época da Romaria dá pra se contar uns Centos e Cinquenta mil Romeiros, e tem mais “Pau de Arara” que o povo daqui, e se vem algum assassino no meio; com certeza ele vem pedir perdão ao Bom Jesus, e as casas viram hotéis, as ruas viram dormitórios, e os estacionamentos; moradias provisórias.



Não blasfemo nem com as cheias do Velho Chico, com as quais já estamos acostumados, e estaria pecando se não acreditasse no poder das nossas “Carrancas”, que o Bom Jesus abençoou-as; nem posso negar que as pessoas que veem de fora com suas doenças, movidas pela fé de aqui encontrar a cura, elas não possam entrar, pois estaria sonegando os milagres do Bom Jesus; sem vos contar que o único Hospital Público que disponho, é mantido pela FSESP, e temos a obrigação de cuidar dos doentes que chegam de tantas Cidades ribeirinhas; das circunvizinhas, e das outras que vem destes Sertões; dessas terras “mazelentas” onde os “Cerrados” reinam, e a relva não serve para o Gado, onde Lagartos dormem sobre pedras; e no meio das pedras... Cobras venenosas. 



E eu não teria nenhuma razão para esperar o Presidente desta República, respaldada pelo voto popular, e pela Constituição Nacional; com Arcos, e Flechas; Tacapes, e Zarabatanas; nem com tiros de Espingarda, nem com tiros de Canhões, pois nem Antônio Carlos Magalhães, Sarney, Tranquedo, Carlos Lacerda, Milton Campos, Magalhães Pinto, Leonel Brizola, nenhum naquela ocasião faria isto; e bem pior, não teriam feito um terço do que eu fiz; e por falar em terço, leve este do Bom Jesus, e diga ao Presidente atual que é um presente que estou oferecendo em nome do meu povo, e em nome da minha administração; e quantas vezes vocês vierem aqui, serão recebidos por mim, deste meu jeito desajeitado, mas festivo... Agora! Justifiquei-me ao Senhor?




- Ainda não! O General retrucou.
- Quem foi daqui que deu alguma assistência ao Lamarck? Foi o Senhor?
- Que é que é isto General? Quem deu assistência ao Lamarck, foi o Terror!
- Nada estou entendendo! Apesar de saber que ele era amigo, e muito amigo do Terror, mas como o Terror era amigo dele, posso compreender.
-Ah! O senhor sabia que ele era amigo do Terror, por que então vens à cata de mim; logo eu que conheço tanto o Terror, mas não sabia que aquele severgonha estava por trás de tudo isto.
E o General ficou pensando; este cabra é meio doido mesmo, e como não quero voltar doido pra Brasília, o papo está encerrado; mas vou lhe fazer a última pergunta.
- Seu Prefeito!
- Sim Senhor!
- O que o senhor tem a dizer do Fidel, e do Guevara Che?
- Falou Inglês Doutor! Eu sube por aí em conversa de Buteco, e de Puteiro; que o Jango era meio amigo desse tal de Fidel, mas tem Castro no mei, não tem? Agora esse tá de Quevara Tche! O Sinhor não tá brincando comigo não; né! Pois aqui perto tem (dois) “lugar” bem bom pra gente vê; e se o Senhor quiser ir lá! Mando buscar agora! O Miguelzim “Camisa Preta”, ele é o “chegado” das muié! O Cara é bom, e o melhor segurança, em; Maria Gorda; Maria Santa, e no Vietnã, e em qualquer “buraco” aqui de Lapa.
- Vietnã! Gritou o General de olhos arregalados
- Calma meu General! Nun é isso que o Senhor está pensando não, lá era Guerra, aqui! É outra coisa; muié num farta; e eu e Miguelzim, junto com outro caboclim daqui, não se incomoda? ... Pagamos a conta, e toda sua rapaziada vai gostar, putaria é pouco, vamos lá!
E o General para espanto de todos, apertou a mão direita do Prefeito, riu de si, pediu desculpas, e avisou; daqui a quinze dias vem à autorização para sua continuação no Mandato.
Mas saiu sem saber de várias coisas... Quem era o Terror... Nem o Vietnã... Nem Maria Gorda... Nem Maria Santa... Nem Miguel Camisa Preta.
Tempos após, eu tive o prazer de conhecer “O Terror”; ele havia exercido a função de Médico clandestinamente por que não era Diplomado, mas o Djalma me confidenciou que não havia por ali, médico melhor. Fora ele um dos primeiros médicos da Cidade, e até “as Elites” passaram por seu Bisturi, sã, e salvas; e sem botar defeitos, e ai! De quem falasse mal do cara; até que um dia alguém o dedurou; que ele não era Médico, e ele teve que “fugir”.
Cheguei um dia, através do Djalma, a conversar com ele, e ele próprio mostrava um interesse tamanho que eu o acompanhasse para o Mato Grosso do Norte; dizia que havia muita Malária, mas o tempo o ensinou lidar com esta Endemia, e Epidemia em algumas situações; mas para ele valia mais agora, o Ouro; e Ouro havia demais por onde andara. Não quis acompanhá-lo nesta missão, pois meu destino seria os Garimpos de Ouro do Teles Pires, e do Peixoto de Azevedo; hoje! Cidades; ontem! O inferno verde, onde nas barranqueiras dos Rios nasceram essas Cidades; que muitos anos depois, depois de ser aprovado no último Concurso Público para a FSESP (1990), e fui designado para trabalhar em Terra Nova do Norte; e mais uma vez o destino me disse não!
Na primeira oportunidade tinha contra mim: três filhos pequenos do primeiro casamento com uma Odontóloga; para nós, lucro, para eles, um futuro incerto e duvidoso. Na segunda oportunidade já no segundo casamento: duas filhas menores, e uma mulher formada em Enfermagem; que não havia passado no Concurso, e para complicar mais minha vida, nesta oportunidade foi descoberto que ela era portadora de Leucemia Mielóide Crônica... E o que seria de mim? O que seria dela? O que seria de nossas filhas?
Pensar só em mim; nunca?
Mas de que me valeu? Pouco tempo depois estava novamente separado, pois o desejo de minha ex-esposa, era terminar seus dias de vida com sua família. Tentar Transplante de Medula para ela, eu tentei, mas foi em vão: seu irmão médico convenceu a família que aquela tentativa era experimental, e que minha pressa girava na medida de ver-se encerrado o caso: ela morta, e eu viúvo; donos das Filhas, e do pequeno patrimônio que um homem honesto hoje pode construir.
Pago por isto até hoje, mas a minha consciência não! E há mais de 17 anos, pude construir outra família.
OBS - Lamento a impossibilidade de exibir o Vídeo; Especial Bom Jesus da Lapa - 05 de Agosto de 2013, aonde se divulga: Bom Jesus da Lapa; seus Artistas; a Religião Católica, pois há a afirmação... Este Vídeo não existe; quando existe! Fará falta; mas faz parte deste jogo... Eu! Conheço.

Dr. Ademar Raimundo de Barros. 

Comentários do Autor: Talvez seja meu penúltimo trabalho, pois quero concluir tudo com uma Poesia (a meu jeito). Muitas coisas tem me desanimado; muitas situações são ofensivas; outras situações são ostensivas: e não suporto viver sob nenhuma pressão, basta-me Deus! Para que eu possa obedecer aos seus principais Mandamentos; viver o seu Verbo; e me contemporizar na reflexão de suas palavras.
Mas eu não me posso distinguir de quem por fé se liga a Deus, tomando por Elo; imagens, pois através de Mitos chegamos a Deus, como não posso admitir que um Livro colocado debaixo do Braço; cotovelos, mãos, e sovacos de “Cobras” seja este Elo; quando instintos afastados de Deus, afloram destes mesmos Braços; dessas bocas que se dizem, salvas! Salvos! Somos os verdadeiros filhos de Deus; desgraças aos outros.
Sou este transeunte entre; Pirâmides, e Templos; pouco me importam que sejam Igrejas, ou Sinagogas; pouco me importa seus rituais, ou Ritos; importa-me a Ideologia, e a Política que possam se agregar, ou se agreguem, a uma Filosofia extremista... ”Mate em nome Deus”, pois é uma contradição ao seu primeiro Mandamento...
- Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo, e complementa...
- Não matarás.
E orienta...
- Não roubarás; nem desejeis aquilo que não é teu.
Só bastam-nos compreender estes três caminhos, pois se, e somente se; eles forem seguidos, se não estivermos ao lado direito, ou esquerdo, de Deus; estaremos diante do seu alcance.
À Bom Jesus da Lapa; meu berçário; minha incubadora; meu Santuário; Meu Porto; obrigado por tudo o que fez por mim, e que me transformou neste Generalista que não nego.
Obrigado Roberto Eliziário de Souza; Nelson Kanaschiro, Nilson Maciel, João de Caitité-Ba, Carlos Alberto Souto Batista, Flávio Anestesista, Mestre Maurício - “Labareda “Siri dentro da Lata”; e a todos os Funcionários da Unidade Mista da FSESP daquela época”.
Eu iria excluir nesta data (08/11/2014) por uma questão de "Espaço", este Comentário. Costumeiramente (na impossibilidade de Visualizar Páginas), uso o artifício de Atualizações; mas a Lapa faz parte da minha Vida, e não tive a coragem de excluir do contexto esta Postagem.
Sem mais dos: “Anônimos da Poesia e da Arte”, e dos, Desastrolados do Desconhecido.


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